O triste fim da Oi FM

7 07 2010

A partir do início desse mês, a Oi FM saiu das freqüências de rádio de Fortaleza. Uma grande perda para os seus ouvintes da capital cearense, já que nenhuma rádio local se assemelha em estilo e muito menos na filosofia que ela possuía para realizar sua programação musical.

A Oi FM possuía a missão de democratizar a música nas ondas sonoras da rádio. Como o próprio marketing da rádio indicava, ela era livre para tocar “as mais pedidas, as menos pedidas, e as nunca pedidas”. A Oi FM sempre foi para mim uma grande fonte de descoberta de músicas novas. Bem diferente das várias outras rádios populares que não saem do circuito dos lançamentos pop, e tocam incansavelmente as mesmas músicas várias vezes ao dia. Além disso, a rádio ainda desenvolvia um conceito de interatividade que ainda não chegou nem perto da concorrência. Com o celular, o ouvinte podia interferir diretamente na programação, além de saber nome e artista das músicas que eram executadas via SMS.

Mas essa estratégia não deu muito certo, e o grande onipotente mercado não perdoou. Os índices de audiência da rádio eram baixíssimos, e por isso, os anunciantes, mesmo reconhecendo a qualidade da rádio (sei disso por fontes próprias), preferiam anunciar nas rádios de forró, ou de música pop, que garantiam um retorno muito mais certo. O episódio me fez lembrar com saudosismo da também extinta Rádio Rock de Fortaleza, que não durou mais que dois anos na capital pelo mesmo motivo.

Essa é a triste “ditadura da maioria” que também governa os mercados. Se não é aceito pela massa, um empreendimento fica simplesmente inviável, e seu fim é uma questão de tempo. “Então eu nunca vou poder ouvir Rock na rádio, simplesmente porque a população de Fortaleza não gosta desse estilo?”, alguém por aí vai se perguntar. Nesse cruel sistema de livre mercado defendido por aí por muita gente, essa interrogação pode até ser verdadeira, mas a história não precisa ser necessariamente assim.

Na tentativa de fornecer o bem-estar social, o Estado também deve atentar para esse tipo de coisa, por mais que hoje isso pareça uma grande besteira frente aos problemas sociais que hoje fazem parte da realidade brasileira. Aqui, portanto, uma idéia de o Estado interferir nas opções de entretenimento da população parece absurda, mas esse não é o caso quando tratamos de países mais desenvolvidos, como muitos na Europa. Tomando como exemplo o sistema televisivo espanhol, podemos ver uma forte intervenção do Estado. Lá, o governo possui dois, dos sete canais disponíveis em TV aberta. A programação de cada um é bem diferente. A TVE1, um dos canais líderes em audiência na Espanha, transmite programas de auditório, humorísticos, shows de música pop, além dos jogos da seleção espanhola de futebol. Já a TVE2 tem uma programação composta de documentários, jornais, e concertos de ópera. É óbvio que a TVE2, se fosse privada, acumularia prejuízos ano após ano, e em questão de tempo sairia da rede. No entanto, o Estado aqui intervém, e os lucros obtidos pela TVE1, financiam os prejuízos da TVE2, e no final, ambos os admiradores de música pop como de ópera ficam satisfeitos. Isso também acontece no Brasil, através dos incentivos que o governo fornece à TV Cultura, mas em escala bem mais reduzida.

Ao que tudo indica, os ouvintes da Oi FM em Fortaleza ficarão órfãos. Uma nova rádio vai ocupar a freqüência 101.7, e está hoje em fase de testes. No entanto, pelo pouco que ouvi da programação inicial dessa nova rádio, não creio que seu estilo seja efetivamente parecido com o da Oi FM, por mais difícil que seja definir um estilo àquela rádio, que tocava de tudo. A Oi FM ainda está disponível na web pra quem se interessar. Essa sim, uma mídia verdadeiramente democrática.

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“El Secreto de sus Ojos”, e o plano-sequencia que se sobressai ao filme

10 05 2010

O vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, o argentino “El Secreto de sus Ojos” é um belo filme. Centraliza, em uma mesma narrativa, dois gêneros bens distintos: o romance e o policial. Apesar dessa difícil tarefa, o filme é muito bem conduzido, e o resultado final é uma obra extremamente coesa que consegue envolver quem a assiste de maneira muito eficiente. É mais uma grande obra do diretor Juan José Campanella, que em 2001 já havia realizado uma proeza chamada “El hijo de La Novia”. Fica aqui a minha recomendação.

No entanto, não deixa de ser um filme tão bom quanto vários outros que assisti durante esse ano. Poderia muito bem considerá-lo apenas como mais um.  Poderia, se não houvesse no filme um momento em particular, que o torna especialmente único no meio dos outros. Refiro-me a uma cena, ou melhor dizendo, um plano-seqüência, que é uma aula de como se fazer cinema!

Um plano-seqüência, para quem não está familiarizado com o termo, é caracterizado pela filmagem de uma ação inteira sem cortes. Essa é uma técnica que agrega consideravelmente mais realismo às cenas, pois, por não ocorrerem cortes ou trocas de câmeras, permite ao espectador uma visão contínua e completa do que acontece em cena, além de exigir mais dos atores, que ficam submetidos a uma situação que se assemelha mais ao teatro. Além desses elementos, um plano-seqüência bem dirigido adiciona uma beleza estética ao filme através de movimentos de câmera pouco convencionais, com malabarismos por parte do diretor para organizar tudo o que se passa na cena dentro do enquadramento da câmera. E é justo nesse ponto que “El Secreto de Sus Ojos” impressiona.

O filme conta com um espetacular plano-sequencia de cinco minutos que se passa (pasmem) dentro de um estádio de futebol lotado. Essa cena é de uma importância chave na estória do filme, e, por isso, para apreciá-la integralmente, é interessante que se assista ao filme todo. Além disso, é bem difícil encontrar na internet essa cena na íntegra e avulsa, pois ela é constantemente deletada do youtube por conta de direitos autorais. No entanto, no final do post você pode assistir o seu trecho inicial pra ter uma idéia do que se trata.

Já vi muita gente falando que esse é o melhor plano-seqüência da história do cinema, mas prefiro não cair na tentação de afirmar isso em respeito a grandes diretores que já se aventuraram nessa técnica. O mestre Alfred Hitchcock, por exemplo, já filmou um longa inteiro dentro de um único plano-seqüência, o brilhante Festim Diabólico, que além da beleza estética proporcionada por essa técnica, é um filme fascinante também em seu enredo.

E ao final sempre ocorrem aquelas dúvidas sobre como a cena foi filmada. Quando perguntado sobre isso, Campanella foi bem enfático ao declarar que o fato de que todos se intriguem a respeito de como ela foi feita faz parte da diversão, e que por isso não irá revelar nada. Ele apenas afirma que sua produção exigiu dois anos de preparação, três dias de filmagem com atores e 200 figurantes, e nove meses de pós-produção, com a utilização do mesmo software utilizado em “O Senhor dos Anéis”.

Esse é um caso em que uma cena em particular do filme supera quase todo o conjunto da obra. É como aquele gol emblemático que marca um jogo regular, e que no futuro as pessoas somente lembrarão do gol, e não da partida, embora não sei se esse seja o caso nesse filme.

Talvez a cena nem tenha sido sequer tão relevante para a escolha do filme como vencedor do Oscar. Não acredito que a academia tenha esse mesmo senso crítico que possuo, elevando o status de um filme por conta de uma cena isolada. E até porque, afirmo mais uma vez, “El Secreto de Sus Ojos” é um belo filme independente dessa cena. Aliás, o filme é mais um exemplo que mostra porque o cinema argentino está anos-luz à frente do brasileiro. Mas o tempo está sendo bondoso conosco, e nosso cinema vem evoluindo nos últimos anos. Quem sabe um dia a gente chega lá.





A vitória do futebol-arte?

5 05 2010

Domingo não tivemos uma vitória apenas do futebol-arte. Foi também a consagração de uma equipe que contou com todos os atributos dignos de um time montado para ser campeão: raça, tática, preparo físico, emoção e, por que não, sorte.

Foi a vitória de um time que encanta a quem gosta do jogo bem jogado, e, mais importante, que proporciona ao torcedor espetáculos semana após semana desde o começo da temporada. O Santos encanta não só pela qualidade do futebol que joga. Encanta também por deixar a qualidade do adversário aparecer, ele joga e deixa jogar, e o resultado são esses jogos em que você não consegue tirar o olho do campo. São incontáveis os exemplos de jogos marcantes que esse time disputou no decorrer do ano. À parte as goleadas por 7, 8, 9 gols de diferença, tivemos jogos disputadíssimos como os contra a Portuguesa, Palmeiras, Paulista de Jundiaí, São Paulo (o primeiro jogo da semifinal), Santo André (ambos os jogos da final) e Atlético-MG, sendo esse último, sem dúvidas, um dos maiores jogos de futebol que já vi em minha vida.

Aí alguns vão dizer, “ah, mas dos jogos dessa lista o Santos mais perdeu do que ganhou”. Bem, isso também faz parte, no futebol, mais do que qualquer outro esporte, o resultado final é misteriosamente imprevisível. Só posso dizer que, até agora, esse trade-off entre o futebol bonito/feio, ou ataque/defesa, vem dando certo a favor do Santos.

Eu faço parte de uma geração que se acostumou a conviver com o futebol onde o destruir ficou tão ou mais importante do que o construir. Onde times repletos de volantes representam nossa pentacampeã seleção nacional. Onde times são tricampeões brasileiros na base de jogadas repetitivas e chuveirinhos na área. Nada contra o estilo de jogo de cada equipe, o futebol também é bonito por proporcionar essa liberdade de um time ter sucesso jogando à sua forma e dentro de suas limitações, mas é importante não esquecer que o futebol é muito, mas muito mais que isso.

Me dói ver torcedores adversários diminuindo e taxando esse time de “marrento” e prepotente. Achar prepotência ou não dos garotos que fazem inocentes provocações aos adversários é uma questão muito discutível, e que pode ser tratada em um post diferente. Me limito aqui àquilo que realmente importa para mim, e para qualquer apreciador do bom futebol, que é o que esses garotos fazem dentro de campo. Pouco me importa se o sonho de Neymar é ter uma Lamborghini amarela e uma Ferrari vermelha na garagem. O que ele faz fora de campo é problema dele, e não cabe a mim ficar julgando um moleque de 18 anos. Prefiro enaltecer o futebol que ele vem jogando. Prefiro enaltecer o surgimento de um Paulo Henrique Ganso (que escrevo aqui sem medo de errar que será um dos maiores jogadores que essa geração já viu jogar). Prefiro enaltecer essa arte do futebol, que agora parece muito mais arte do que antes.





E viva o imperialismo tupiniquim!

22 07 2008

A aquisição da norte-americana Anheuser-Busch (a empresa que produz, entre outras importantes marcas, a cerveja Budweiser) pela InBev é mais um marco dos novos tempos que se aproximam. A empresa, resultado da fusão entre a brasileira AmBev e a belga Interbrew, apesar de ter sua sede em Leuven, na Bélgica, possui o corpo diretivo composto basicamente por empresários brasileiros como Carlos Brito e Jorge Paulo Lemann. A aquisição é mais um dos fatos que enfatiza a força e importância econômica desenvolvida pelos países emergentes na atual conjuntura global.

Quem diria, há uma década atrás, que um dos maiores símbolos do american way of life seria absorvido por uma gigante belga-brasileira do setor cervejeiro, em mais um meganegócio desse capitalismo selvagem tanto praticado pelos próprios americanos? O que parecia um absurdo há pouco tempo atrás, se torna hoje uma realidade, causando uma grande insatisfação do povo americano, que passou, por uma dessas impagáveis ironias do destino, a denunciar o imperialismo belgo-brasileiro. Foram feitas campanhas de massa contra a venda da A-B (Anheuser-Busch), sites e abaixo assinados virtuais foram lançados na Internet tentando proteger o símbolo norte-americano do imperialismo estrangeiro, mas não deu. Como sempre deveria ocorrer, a racionalidade econômica falou mais alto e a oferta astronômica de 52 bilhões de dólares foi devidamente aceita. A Budweiser agora deve entrar no mercado brasileiro, e a InBev no mercado norte-americano. Bom negócio para ambos os lados.

Além dessa transação, presenciamos, ainda nesse ano, a compra das marcas Jaguar e Land Rover pela fabricante indiana Tata Motors. Juntos, esses negócios evidenciam a importância da mudança de foco, no contexto econômico global, para os países em desenvolvimento. Em meio à crise pulverizada por toda economia global, as grandes taxas de crescimentos continuam sendo dos países integrantes do chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), e são elas que funcionam como o principal motor da economia atual, puxando o crescimento de outros países. É uma importância que chama a atenção e muda certos paradigmas. Há certo tempo, a grande maioria dos negócios do comércio exterior acontecia entre paises desenvolvidos, hoje a situação tende para o lado oposto, onde os emergentes se apresentam ora protagonistas de transações com valores astronômicos e ora como as grandes oportunidades de rentabilidade de investimento atraindo capitais do mundo todo. A bolsa brasileira, por exemplo, era, antes da semana passada, a única bolsa com rendimento positivo em 2008 entre as bolsas significativas de todo o mundo.

O fato é que temos hoje a maior cervejaria do mundo controlada por um CEO brasileiro, o que é digno de comemoração. Entramos também com tudo na terra do Tio Sam. Para se ter uma idéia, a Budweiser é nada menos que a maior anunciante dos Estados Unidos. Em 2007, foram gastos pela empresa US$ 475 milhões em publicidade, gerando verdadeiras obras-primas publicitárias, como o comercial abaixo.

Escrito por renanfig.





67 anos de Bob Dylan

24 05 2008

Há exatos 67 anos, fomos presenteados com o nascimento de um dos maiores gênios da cultura contemporânea. Falar de como Bob Dylan foi importante para a música é perfeitamente dispensável, mas sua importância vai muito além disso. Ele foi um dos personagens chave para a notável década de 60, que mudou os cursos da influência da cultura nos EUA e em todo o mundo. O garoto de 20 e poucos anos, com voz fanha e gaita estridente conseguiu como ninguém penetrar nos veículos de massa americanos, que na área musical eram dominados pelas figuras politicamente corretas, com vocais limpinhos e arranjos elaborados.

Com certeza, o cara foi um dos artistas mais influentes do século XX, e parece continuar influenciando nossa cultura atualmente. Prova disso são as freqüentes regravações de sua música por artistas que vão de Avril Lavige à Johnny Winter, e os recentes filmes de muito sucesso baseados na figura de Dylan, os muito bons No Direction Home, dirigido impecavelmente por Martin Scorcese; e o enigmático I´m Not There, de Todd Haynes, que conta com nada menos que seis atores de peso para interpretar Bob Dylan em cada uma de suas fases. Aliás que metamorfose ambulante é esse Bob Dylan.

As várias faces de Bob Dylan

Dylan começou a carreira na cena folk, composta na época por intelectuais e universitários. Suas músicas com letras fortes e muito interpretadas como de protesto logo o fizeram um dos “reis” do movimento americano. Eis então que em um belo dia Dylan troca seu violão pela guitarra elétrica, se junta a uma banda e faz um show de rock-blues chocando milhares de seguidores folks, que o elegiam como um de seus principais ícones. As reações estão muito bem retratadas no documentário No Direction Home, e uma das cenas mais legais do filme é essa aí de cima (se você não vê nada, atualize seu IE ou baixe o Firefox), onde Bob nos brinda com uma performance marcante sob vaias e gritos de “Judas!” da platéia folk enfurecida.

Dylan não se acomodou com o sucesso alcançado, pelo contrário, procurou evoluir e sofisticar sua música, mesmo que isso tenha lhe custado atritos com seu público mais fiel. Com isso enriqueceu sua obra. Além dessa transição brusca do folk para o rock, Bob Dylan já teve refletido em suas letras suas fases de contestador, introspectivo, sócio-responsável e até religioso, com sua aproximação da música gospel.

Um dos pontos mais brilhantes de sua obra foi a aliança entre literatura e música, muito pouco antes vista com tanta eficiência. As metrificações e rimas perfeitas adicionam uma profundidade poética essencial em sua música. Vários outros pontos interessantes marcam positivamente a obra de Dylan, listá-los demandaria quase outro texto, portanto vou parar por aqui. Ele foi sem dúvidas (pra não perder a oportunidade de usar o chavão) um homem à frente de seu tempo. Parabéns para essa lenda viva da música!

Escrito por renanfig.





Estado ou mercado?

22 05 2008

No ultimo post foi exposta a dificuldade em se tratar da administração dos sistemas de saúde tanto pelo setor público, com a socialização dos serviços médicos, como pelo setor privado, com o a filosofia de livre mercado.

Esse é mais um exemplo que evidencia que nem o Estado, nem o mercado são suficientes sozinhos, o interessante a ser buscado é uma progressiva cooperação entre os dois. A antiga visão extremista que cada instituição era antagônica à outra parece ser cada vez mais ultrapassada, são vários os exemplos que mostram que políticas públicas aliadas à lógica do capital proporcionam bons resultados práticos. Retomando o assunto do último post, o exemplo que vou citar é exatamente o modelo de gestão da saúde adotado por Cingapura.

O sistema no pequeno país asiático funciona através de uma sinergia entre o poder público e privado. Todo cidadão cingapuriano possui uma poupança compulsória que é abastecida mensalmente através de uma taxa paga tanto pelo dono da conta como pelo governo. Aqueles que possuem renda insuficiente para o pagamento do mínimo estipulado mensal, recebem ajuda do governo para completar a contribuição. Essa poupança rende altos juros ao ano, e fica disponível ao indivíduo a qualquer momento para suas despesas médicas. Dessa forma, o paciente garante a autonomia para tomar suas decisões e escolher o seu tratamento apropriado, resolvendo um dos problemas dos modelos citados no post anterior, onde quem decidia o tratamento a ser utilizado eram ora as seguradoras, ora o governo. Aqui entra o preço de mercado, que equaliza as despesas médicas para o possível “preço justo”. A poupança compulsória paga os tratamentos menos custosos, que representam a grande maioria de casos no sistema de saúde. Os seguros catastróficos pagam os casos mais sérios, e é relativamente barato e acessível à maioria da população.

Os custos do sistema mostram o sucesso alcançado por ele. A despesa por pessoa gira em torno de mil dólares por ano, menor do que o custo estipulado só de burocracia nos EUA. Desse valor, o cidadão paga 700 dólares (nos EUA paga-se três vezes mais às seguradoras), e o governo paga 300 dólares (sete vezes menos que o governo americano). Não tenho dúvidas que esses valores também ficam muito abaixo dos custos no Brasil. Esse modelo promove uma eficiência no setor por dar aos pacientes o máximo de autonomia e responsabilidade no seu tratamento, e por incentivar a concorrência no mercado, com isso gastos supérfluos com burocracia, por exemplo, são minimizados.

O sistema de saúde de Cingapura é um dos mais avançados do mundo e é exemplo por seus avanços tecnológicos e acessibilidade à população. Sua fórmula é consolidada há duas décadas e seu sucesso se reflete em ótimos indicadores de saúde e reconhecimento internacional (como mostra essa reportagem da BBC). Ela sofre, entretanto, alguma resistência para ser aplicada em outros países devido ao debate político-ideológico que contrapõe as figuras de Estado e mercado em suas funções. Essa visão maniqueísta entre as duas instituições precisa ser definitivamente superada para o desenvolvimento das organizações políticas atuais. Ao meu ver, essa polarização ideológica está hoje completamente defasada e seu prolongamento só causa mais atraso.

Em certo período da história, o Neoliberalismo foi importante por desempenhar uma função de contraponto radical ao Socialismo. Na Guerra Fria o mundo se encontrava dividido em duas áreas de influência, onde ou um país era capitalista, ou socialista, sem meio-termos. Hoje os tempos são outros. Acreditar, em pleno século XXI, que Estado forte intervencionista é retrocesso não cabe mais, na minha opinião, no nosso contexto histórico.

Escrito por renanfig.





$O$ Saúde

16 05 2008

Pegando carona no sucesso recente desse novo documentário do Michael Moore, o excelente Sicko, esse post coloca em pauta o problema crônico da administração da saúde pública e privada presente em quase todo o mundo.

O tema merece reflexão pelo óbvio motivo de tratar de um assunto tão delicado em nossas vidas, e por isso eu pego aqui emprestada a pobre tradução de Sicko, “$O$ Saúde”, para intitular a postagem. O filme é uma ácida crítica ao precário sistema de saúde dos EUA, Moore está em plena forma, e, apesar do tradicional sensacionalismo do diretor, o filme aborda com muita competência o tema. O sistema de saúde nos EUA funciona baseado no princípio da livre concorrência, com exceção dos programas Medicare e Medicaid, com os quais o governo americano atende a população mais idosa e alguns marginalizados, a iniciativa privada impera no setor. Não é o novo documentário de Michael Moore que mostra a precariedade desse sistema americano, mais de 50 milhões de pessoas não tem direito a um seguro de saúde, enquanto a maioria dos outros 250 milhões sofre com o péssimo e cruel serviço das seguradoras, portanto esse é um problema já consolidado e muito debatido no país, estando inclusive presente com importância especial na atual corrida presidencial à Casa Branca.

O interessante (e triste) é que os números mostram que a solução está longe de chegar. Os EUA é o país que mais gasta com saúde no mundo! Mesmo com a presença maciça do setor privado na saúde o governo americano surpreendentemente gasta cerca de três vezes mais do que a Inglaterra em despesas per capita no setor (e olha que na Inglaterra qualquer cidadão tem direito ao atendimento gratuito em qualquer clínica no país). Vários fatores contribuem para essa estatística, burocracia excessiva e os nada saudáveis hábitos do americano são alguns deles.

O filme, inclusive, roda algumas cenas em países como Canadá, Inglaterra e Cuba, mostrando as maravilhas do serviço médico socializado e empurrando o sonho social-democrata goela abaixo do telespectador, e é justamente nesse ponto que o filme falha, tropeçando em sua parcialidade. Olhando de perto dá pra perceber que essa maravilha na verdade não é bem assim. Segundo pesquisas, cerca de 75% da população britânica está insatisfeita com seus serviços de saúde, o que motivou Tony Blair a promover recorrentes reformas no setor durante seu mandato, apontando para uma provável privatização gradual dos serviços médicos na terra da Rainha. O sistema britânico gera a tão discutida ineficiência da administração pública, são vários os problemas. Cada vez mais pessoas procuram assistência médica com o subsídio estatal, muitas vezes por motivos banais, pois o sistema proporciona isso. O que o cidadão tem a perder já que quem paga tudo é o Estado? Isso gera longas filas, burocracia e descontentamento para o cidadão britânico. O órgão governamental NHS (National Health Services) conta com um limite de recursos para serem aplicados, assim alguns tratamentos são integralmente pagos pelo Estado enquanto outros só são disponíveis na rede privada, ferindo assim o princípio de equidade do sistema. Outro fato importante é que o paciente fica totalmente alheio ao seu tratamento, quem decide os procedimentos a serem seguidos em grande parte das vezes é o Estado, optando freqüentemente para a alternativa mais barata. Esses e outros motivos provocam dores de cabeça aos governantes no Reino Unido e em vários outros países da União Européia.

Como resolver esse problema então? Bem, idéias e sugestões já existem, mas infelizmente vou ter que cometer a indelicadeza de entrar nesse mérito somente na próxima postagem já que seria um assunto diferente do aqui dissertado.

Escrito por renanfig.

Assista: