“El Secreto de sus Ojos”, e o plano-sequencia que se sobressai ao filme

10 05 2010

O vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, o argentino “El Secreto de sus Ojos” é um belo filme. Centraliza, em uma mesma narrativa, dois gêneros bens distintos: o romance e o policial. Apesar dessa difícil tarefa, o filme é muito bem conduzido, e o resultado final é uma obra extremamente coesa que consegue envolver quem a assiste de maneira muito eficiente. É mais uma grande obra do diretor Juan José Campanella, que em 2001 já havia realizado uma proeza chamada “El hijo de La Novia”. Fica aqui a minha recomendação.

No entanto, não deixa de ser um filme tão bom quanto vários outros que assisti durante esse ano. Poderia muito bem considerá-lo apenas como mais um.  Poderia, se não houvesse no filme um momento em particular, que o torna especialmente único no meio dos outros. Refiro-me a uma cena, ou melhor dizendo, um plano-seqüência, que é uma aula de como se fazer cinema!

Um plano-seqüência, para quem não está familiarizado com o termo, é caracterizado pela filmagem de uma ação inteira sem cortes. Essa é uma técnica que agrega consideravelmente mais realismo às cenas, pois, por não ocorrerem cortes ou trocas de câmeras, permite ao espectador uma visão contínua e completa do que acontece em cena, além de exigir mais dos atores, que ficam submetidos a uma situação que se assemelha mais ao teatro. Além desses elementos, um plano-seqüência bem dirigido adiciona uma beleza estética ao filme através de movimentos de câmera pouco convencionais, com malabarismos por parte do diretor para organizar tudo o que se passa na cena dentro do enquadramento da câmera. E é justo nesse ponto que “El Secreto de Sus Ojos” impressiona.

O filme conta com um espetacular plano-sequencia de cinco minutos que se passa (pasmem) dentro de um estádio de futebol lotado. Essa cena é de uma importância chave na estória do filme, e, por isso, para apreciá-la integralmente, é interessante que se assista ao filme todo. Além disso, é bem difícil encontrar na internet essa cena na íntegra e avulsa, pois ela é constantemente deletada do youtube por conta de direitos autorais. No entanto, no final do post você pode assistir o seu trecho inicial pra ter uma idéia do que se trata.

Já vi muita gente falando que esse é o melhor plano-seqüência da história do cinema, mas prefiro não cair na tentação de afirmar isso em respeito a grandes diretores que já se aventuraram nessa técnica. O mestre Alfred Hitchcock, por exemplo, já filmou um longa inteiro dentro de um único plano-seqüência, o brilhante Festim Diabólico, que além da beleza estética proporcionada por essa técnica, é um filme fascinante também em seu enredo.

E ao final sempre ocorrem aquelas dúvidas sobre como a cena foi filmada. Quando perguntado sobre isso, Campanella foi bem enfático ao declarar que o fato de que todos se intriguem a respeito de como ela foi feita faz parte da diversão, e que por isso não irá revelar nada. Ele apenas afirma que sua produção exigiu dois anos de preparação, três dias de filmagem com atores e 200 figurantes, e nove meses de pós-produção, com a utilização do mesmo software utilizado em “O Senhor dos Anéis”.

Esse é um caso em que uma cena em particular do filme supera quase todo o conjunto da obra. É como aquele gol emblemático que marca um jogo regular, e que no futuro as pessoas somente lembrarão do gol, e não da partida, embora não sei se esse seja o caso nesse filme.

Talvez a cena nem tenha sido sequer tão relevante para a escolha do filme como vencedor do Oscar. Não acredito que a academia tenha esse mesmo senso crítico que possuo, elevando o status de um filme por conta de uma cena isolada. E até porque, afirmo mais uma vez, “El Secreto de Sus Ojos” é um belo filme independente dessa cena. Aliás, o filme é mais um exemplo que mostra porque o cinema argentino está anos-luz à frente do brasileiro. Mas o tempo está sendo bondoso conosco, e nosso cinema vem evoluindo nos últimos anos. Quem sabe um dia a gente chega lá.

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$O$ Saúde

16 05 2008

Pegando carona no sucesso recente desse novo documentário do Michael Moore, o excelente Sicko, esse post coloca em pauta o problema crônico da administração da saúde pública e privada presente em quase todo o mundo.

O tema merece reflexão pelo óbvio motivo de tratar de um assunto tão delicado em nossas vidas, e por isso eu pego aqui emprestada a pobre tradução de Sicko, “$O$ Saúde”, para intitular a postagem. O filme é uma ácida crítica ao precário sistema de saúde dos EUA, Moore está em plena forma, e, apesar do tradicional sensacionalismo do diretor, o filme aborda com muita competência o tema. O sistema de saúde nos EUA funciona baseado no princípio da livre concorrência, com exceção dos programas Medicare e Medicaid, com os quais o governo americano atende a população mais idosa e alguns marginalizados, a iniciativa privada impera no setor. Não é o novo documentário de Michael Moore que mostra a precariedade desse sistema americano, mais de 50 milhões de pessoas não tem direito a um seguro de saúde, enquanto a maioria dos outros 250 milhões sofre com o péssimo e cruel serviço das seguradoras, portanto esse é um problema já consolidado e muito debatido no país, estando inclusive presente com importância especial na atual corrida presidencial à Casa Branca.

O interessante (e triste) é que os números mostram que a solução está longe de chegar. Os EUA é o país que mais gasta com saúde no mundo! Mesmo com a presença maciça do setor privado na saúde o governo americano surpreendentemente gasta cerca de três vezes mais do que a Inglaterra em despesas per capita no setor (e olha que na Inglaterra qualquer cidadão tem direito ao atendimento gratuito em qualquer clínica no país). Vários fatores contribuem para essa estatística, burocracia excessiva e os nada saudáveis hábitos do americano são alguns deles.

O filme, inclusive, roda algumas cenas em países como Canadá, Inglaterra e Cuba, mostrando as maravilhas do serviço médico socializado e empurrando o sonho social-democrata goela abaixo do telespectador, e é justamente nesse ponto que o filme falha, tropeçando em sua parcialidade. Olhando de perto dá pra perceber que essa maravilha na verdade não é bem assim. Segundo pesquisas, cerca de 75% da população britânica está insatisfeita com seus serviços de saúde, o que motivou Tony Blair a promover recorrentes reformas no setor durante seu mandato, apontando para uma provável privatização gradual dos serviços médicos na terra da Rainha. O sistema britânico gera a tão discutida ineficiência da administração pública, são vários os problemas. Cada vez mais pessoas procuram assistência médica com o subsídio estatal, muitas vezes por motivos banais, pois o sistema proporciona isso. O que o cidadão tem a perder já que quem paga tudo é o Estado? Isso gera longas filas, burocracia e descontentamento para o cidadão britânico. O órgão governamental NHS (National Health Services) conta com um limite de recursos para serem aplicados, assim alguns tratamentos são integralmente pagos pelo Estado enquanto outros só são disponíveis na rede privada, ferindo assim o princípio de equidade do sistema. Outro fato importante é que o paciente fica totalmente alheio ao seu tratamento, quem decide os procedimentos a serem seguidos em grande parte das vezes é o Estado, optando freqüentemente para a alternativa mais barata. Esses e outros motivos provocam dores de cabeça aos governantes no Reino Unido e em vários outros países da União Européia.

Como resolver esse problema então? Bem, idéias e sugestões já existem, mas infelizmente vou ter que cometer a indelicadeza de entrar nesse mérito somente na próxima postagem já que seria um assunto diferente do aqui dissertado.

Escrito por renanfig.

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