E viva o imperialismo tupiniquim!

22 07 2008

A aquisição da norte-americana Anheuser-Busch (a empresa que produz, entre outras importantes marcas, a cerveja Budweiser) pela InBev é mais um marco dos novos tempos que se aproximam. A empresa, resultado da fusão entre a brasileira AmBev e a belga Interbrew, apesar de ter sua sede em Leuven, na Bélgica, possui o corpo diretivo composto basicamente por empresários brasileiros como Carlos Brito e Jorge Paulo Lemann. A aquisição é mais um dos fatos que enfatiza a força e importância econômica desenvolvida pelos países emergentes na atual conjuntura global.

Quem diria, há uma década atrás, que um dos maiores símbolos do american way of life seria absorvido por uma gigante belga-brasileira do setor cervejeiro, em mais um meganegócio desse capitalismo selvagem tanto praticado pelos próprios americanos? O que parecia um absurdo há pouco tempo atrás, se torna hoje uma realidade, causando uma grande insatisfação do povo americano, que passou, por uma dessas impagáveis ironias do destino, a denunciar o imperialismo belgo-brasileiro. Foram feitas campanhas de massa contra a venda da A-B (Anheuser-Busch), sites e abaixo assinados virtuais foram lançados na Internet tentando proteger o símbolo norte-americano do imperialismo estrangeiro, mas não deu. Como sempre deveria ocorrer, a racionalidade econômica falou mais alto e a oferta astronômica de 52 bilhões de dólares foi devidamente aceita. A Budweiser agora deve entrar no mercado brasileiro, e a InBev no mercado norte-americano. Bom negócio para ambos os lados.

Além dessa transação, presenciamos, ainda nesse ano, a compra das marcas Jaguar e Land Rover pela fabricante indiana Tata Motors. Juntos, esses negócios evidenciam a importância da mudança de foco, no contexto econômico global, para os países em desenvolvimento. Em meio à crise pulverizada por toda economia global, as grandes taxas de crescimentos continuam sendo dos países integrantes do chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), e são elas que funcionam como o principal motor da economia atual, puxando o crescimento de outros países. É uma importância que chama a atenção e muda certos paradigmas. Há certo tempo, a grande maioria dos negócios do comércio exterior acontecia entre paises desenvolvidos, hoje a situação tende para o lado oposto, onde os emergentes se apresentam ora protagonistas de transações com valores astronômicos e ora como as grandes oportunidades de rentabilidade de investimento atraindo capitais do mundo todo. A bolsa brasileira, por exemplo, era, antes da semana passada, a única bolsa com rendimento positivo em 2008 entre as bolsas significativas de todo o mundo.

O fato é que temos hoje a maior cervejaria do mundo controlada por um CEO brasileiro, o que é digno de comemoração. Entramos também com tudo na terra do Tio Sam. Para se ter uma idéia, a Budweiser é nada menos que a maior anunciante dos Estados Unidos. Em 2007, foram gastos pela empresa US$ 475 milhões em publicidade, gerando verdadeiras obras-primas publicitárias, como o comercial abaixo.

Escrito por renanfig.

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Estado ou mercado?

22 05 2008

No ultimo post foi exposta a dificuldade em se tratar da administração dos sistemas de saúde tanto pelo setor público, com a socialização dos serviços médicos, como pelo setor privado, com o a filosofia de livre mercado.

Esse é mais um exemplo que evidencia que nem o Estado, nem o mercado são suficientes sozinhos, o interessante a ser buscado é uma progressiva cooperação entre os dois. A antiga visão extremista que cada instituição era antagônica à outra parece ser cada vez mais ultrapassada, são vários os exemplos que mostram que políticas públicas aliadas à lógica do capital proporcionam bons resultados práticos. Retomando o assunto do último post, o exemplo que vou citar é exatamente o modelo de gestão da saúde adotado por Cingapura.

O sistema no pequeno país asiático funciona através de uma sinergia entre o poder público e privado. Todo cidadão cingapuriano possui uma poupança compulsória que é abastecida mensalmente através de uma taxa paga tanto pelo dono da conta como pelo governo. Aqueles que possuem renda insuficiente para o pagamento do mínimo estipulado mensal, recebem ajuda do governo para completar a contribuição. Essa poupança rende altos juros ao ano, e fica disponível ao indivíduo a qualquer momento para suas despesas médicas. Dessa forma, o paciente garante a autonomia para tomar suas decisões e escolher o seu tratamento apropriado, resolvendo um dos problemas dos modelos citados no post anterior, onde quem decidia o tratamento a ser utilizado eram ora as seguradoras, ora o governo. Aqui entra o preço de mercado, que equaliza as despesas médicas para o possível “preço justo”. A poupança compulsória paga os tratamentos menos custosos, que representam a grande maioria de casos no sistema de saúde. Os seguros catastróficos pagam os casos mais sérios, e é relativamente barato e acessível à maioria da população.

Os custos do sistema mostram o sucesso alcançado por ele. A despesa por pessoa gira em torno de mil dólares por ano, menor do que o custo estipulado só de burocracia nos EUA. Desse valor, o cidadão paga 700 dólares (nos EUA paga-se três vezes mais às seguradoras), e o governo paga 300 dólares (sete vezes menos que o governo americano). Não tenho dúvidas que esses valores também ficam muito abaixo dos custos no Brasil. Esse modelo promove uma eficiência no setor por dar aos pacientes o máximo de autonomia e responsabilidade no seu tratamento, e por incentivar a concorrência no mercado, com isso gastos supérfluos com burocracia, por exemplo, são minimizados.

O sistema de saúde de Cingapura é um dos mais avançados do mundo e é exemplo por seus avanços tecnológicos e acessibilidade à população. Sua fórmula é consolidada há duas décadas e seu sucesso se reflete em ótimos indicadores de saúde e reconhecimento internacional (como mostra essa reportagem da BBC). Ela sofre, entretanto, alguma resistência para ser aplicada em outros países devido ao debate político-ideológico que contrapõe as figuras de Estado e mercado em suas funções. Essa visão maniqueísta entre as duas instituições precisa ser definitivamente superada para o desenvolvimento das organizações políticas atuais. Ao meu ver, essa polarização ideológica está hoje completamente defasada e seu prolongamento só causa mais atraso.

Em certo período da história, o Neoliberalismo foi importante por desempenhar uma função de contraponto radical ao Socialismo. Na Guerra Fria o mundo se encontrava dividido em duas áreas de influência, onde ou um país era capitalista, ou socialista, sem meio-termos. Hoje os tempos são outros. Acreditar, em pleno século XXI, que Estado forte intervencionista é retrocesso não cabe mais, na minha opinião, no nosso contexto histórico.

Escrito por renanfig.





$O$ Saúde

16 05 2008

Pegando carona no sucesso recente desse novo documentário do Michael Moore, o excelente Sicko, esse post coloca em pauta o problema crônico da administração da saúde pública e privada presente em quase todo o mundo.

O tema merece reflexão pelo óbvio motivo de tratar de um assunto tão delicado em nossas vidas, e por isso eu pego aqui emprestada a pobre tradução de Sicko, “$O$ Saúde”, para intitular a postagem. O filme é uma ácida crítica ao precário sistema de saúde dos EUA, Moore está em plena forma, e, apesar do tradicional sensacionalismo do diretor, o filme aborda com muita competência o tema. O sistema de saúde nos EUA funciona baseado no princípio da livre concorrência, com exceção dos programas Medicare e Medicaid, com os quais o governo americano atende a população mais idosa e alguns marginalizados, a iniciativa privada impera no setor. Não é o novo documentário de Michael Moore que mostra a precariedade desse sistema americano, mais de 50 milhões de pessoas não tem direito a um seguro de saúde, enquanto a maioria dos outros 250 milhões sofre com o péssimo e cruel serviço das seguradoras, portanto esse é um problema já consolidado e muito debatido no país, estando inclusive presente com importância especial na atual corrida presidencial à Casa Branca.

O interessante (e triste) é que os números mostram que a solução está longe de chegar. Os EUA é o país que mais gasta com saúde no mundo! Mesmo com a presença maciça do setor privado na saúde o governo americano surpreendentemente gasta cerca de três vezes mais do que a Inglaterra em despesas per capita no setor (e olha que na Inglaterra qualquer cidadão tem direito ao atendimento gratuito em qualquer clínica no país). Vários fatores contribuem para essa estatística, burocracia excessiva e os nada saudáveis hábitos do americano são alguns deles.

O filme, inclusive, roda algumas cenas em países como Canadá, Inglaterra e Cuba, mostrando as maravilhas do serviço médico socializado e empurrando o sonho social-democrata goela abaixo do telespectador, e é justamente nesse ponto que o filme falha, tropeçando em sua parcialidade. Olhando de perto dá pra perceber que essa maravilha na verdade não é bem assim. Segundo pesquisas, cerca de 75% da população britânica está insatisfeita com seus serviços de saúde, o que motivou Tony Blair a promover recorrentes reformas no setor durante seu mandato, apontando para uma provável privatização gradual dos serviços médicos na terra da Rainha. O sistema britânico gera a tão discutida ineficiência da administração pública, são vários os problemas. Cada vez mais pessoas procuram assistência médica com o subsídio estatal, muitas vezes por motivos banais, pois o sistema proporciona isso. O que o cidadão tem a perder já que quem paga tudo é o Estado? Isso gera longas filas, burocracia e descontentamento para o cidadão britânico. O órgão governamental NHS (National Health Services) conta com um limite de recursos para serem aplicados, assim alguns tratamentos são integralmente pagos pelo Estado enquanto outros só são disponíveis na rede privada, ferindo assim o princípio de equidade do sistema. Outro fato importante é que o paciente fica totalmente alheio ao seu tratamento, quem decide os procedimentos a serem seguidos em grande parte das vezes é o Estado, optando freqüentemente para a alternativa mais barata. Esses e outros motivos provocam dores de cabeça aos governantes no Reino Unido e em vários outros países da União Européia.

Como resolver esse problema então? Bem, idéias e sugestões já existem, mas infelizmente vou ter que cometer a indelicadeza de entrar nesse mérito somente na próxima postagem já que seria um assunto diferente do aqui dissertado.

Escrito por renanfig.

Assista:





Página de Economia atualizada

28 04 2008

Pra quem se interessar, adicionei à página de Economia dois textos interessantíssimos, sobre o Neoliberalismo. O primeiro, Fim da onda neoliberal, foi publicado essa semana na Folha de S. Paulo e gerou muita polêmica no meio econômico, e trata da crise pela qual atravessa o modelo. O segundo é uma crítica ao primeiro, e foi publicado na Revista Época dessa semana. Os textos (essa semana, pelo menos) são exclusivos para assinantes da Folha e da Época, como eu assino os dois passei os textos aqui pro blog pra ficarem acessíveis para todos.

Escrito por renanfig.