A vitória do futebol-arte?

5 05 2010

Domingo não tivemos uma vitória apenas do futebol-arte. Foi também a consagração de uma equipe que contou com todos os atributos dignos de um time montado para ser campeão: raça, tática, preparo físico, emoção e, por que não, sorte.

Foi a vitória de um time que encanta a quem gosta do jogo bem jogado, e, mais importante, que proporciona ao torcedor espetáculos semana após semana desde o começo da temporada. O Santos encanta não só pela qualidade do futebol que joga. Encanta também por deixar a qualidade do adversário aparecer, ele joga e deixa jogar, e o resultado são esses jogos em que você não consegue tirar o olho do campo. São incontáveis os exemplos de jogos marcantes que esse time disputou no decorrer do ano. À parte as goleadas por 7, 8, 9 gols de diferença, tivemos jogos disputadíssimos como os contra a Portuguesa, Palmeiras, Paulista de Jundiaí, São Paulo (o primeiro jogo da semifinal), Santo André (ambos os jogos da final) e Atlético-MG, sendo esse último, sem dúvidas, um dos maiores jogos de futebol que já vi em minha vida.

Aí alguns vão dizer, “ah, mas dos jogos dessa lista o Santos mais perdeu do que ganhou”. Bem, isso também faz parte, no futebol, mais do que qualquer outro esporte, o resultado final é misteriosamente imprevisível. Só posso dizer que, até agora, esse trade-off entre o futebol bonito/feio, ou ataque/defesa, vem dando certo a favor do Santos.

Eu faço parte de uma geração que se acostumou a conviver com o futebol onde o destruir ficou tão ou mais importante do que o construir. Onde times repletos de volantes representam nossa pentacampeã seleção nacional. Onde times são tricampeões brasileiros na base de jogadas repetitivas e chuveirinhos na área. Nada contra o estilo de jogo de cada equipe, o futebol também é bonito por proporcionar essa liberdade de um time ter sucesso jogando à sua forma e dentro de suas limitações, mas é importante não esquecer que o futebol é muito, mas muito mais que isso.

Me dói ver torcedores adversários diminuindo e taxando esse time de “marrento” e prepotente. Achar prepotência ou não dos garotos que fazem inocentes provocações aos adversários é uma questão muito discutível, e que pode ser tratada em um post diferente. Me limito aqui àquilo que realmente importa para mim, e para qualquer apreciador do bom futebol, que é o que esses garotos fazem dentro de campo. Pouco me importa se o sonho de Neymar é ter uma Lamborghini amarela e uma Ferrari vermelha na garagem. O que ele faz fora de campo é problema dele, e não cabe a mim ficar julgando um moleque de 18 anos. Prefiro enaltecer o futebol que ele vem jogando. Prefiro enaltecer o surgimento de um Paulo Henrique Ganso (que escrevo aqui sem medo de errar que será um dos maiores jogadores que essa geração já viu jogar). Prefiro enaltecer essa arte do futebol, que agora parece muito mais arte do que antes.





História mal contada

24 04 2008

O episódio recente do “gás de pimenta” no vestiário do São Paulo é mais um desses misteriosos eventos que causam comoção geral quando acontecem e no final nada é devidamente esclarecido. Na história, todo mundo é suspeito, inclusive (ou até principalmente) o próprio São Paulo. Sei que a essa altura o blog já deve estar parecendo uma coletânea de teorias de conspiração, mas não deixa de chamar a atenção a quantidade de fatos que colocam o São Paulo em uma posição complicada:

1) Os dirigentes do São Paulo rejeitaram os camarotes oferecidos pela direção do Palmeiras para ver o jogo das tribunas do Parque Antártica, foi preferido assistir o jogo do vestiário, na televisão. O mais interessante é saber que os dirigentes passaram todo o primeiro tempo no vestiário mas não se encontravam lá no momento exato em que o gás foi acionado;

2) Um gás com aquelas características é menos denso que o ar, portanto fica difícil acreditar na hipótese que o gás tenha sido jogado de fora pra dentro, pela tubulação do vestiário, pelo fato de o vestiário ser a parte mais baixa do estádio. A Polícia Militar praticamente descarta a hipótese do evento ter sido causado por algum torcedor ou vândalo de fora do vestiário;

3) E o principal, as motivações de cada time para fazer o que foi feito. Durante toda a semana, os dirigentes do São Paulo eram contra a disputa da partida no Parque Antártica, afirmando que o estádio não tinha condições de abrigar um jogo tão importante, tentando transferir a decisão para o Morumbi. Um episódio lamentável como esse só daria razão ao argumento são paulino, podendo inclusive refletir na decisão dos locais das partidas finais do campeonato, que seriam disputadas no Morumbi, gerando renda ao clube mesmo sem disputar a final. O Palmeiras, por sua vez, deve se interessar somente em provar o contrário, que seu estádio tem todas as condições de abrigar jogos importantes, portanto não vejo motivação por parte da diretoria do Palmeiras cometer um absurdo desses.

Claro que esses fatos não provam coisa alguma, mas essa desconfiança do São Paulo só acaba sendo fruto de episódios passados, como quando o Bosco simulou ter sido atingido por uma pilha ano passado, para tentar a interdição do estádio palmeirense, ou quando, no clássico com o Santos, na Vila Belmiro, torcedores da Independente começaram brigas nas arquibancadas conseguindo vetar o estádio santista para as decisões do campeonato.

Já circula na Internet um vídeo editado por um palmeirense tentando comprovar a farsa, mas o fato é que, dadas as circunstâncias do acontecimento, fica muito difícil provar qualquer coisa à essa altura do campeonato, por isso acho que, como muita coisa no Brasil, esse é mais um daqueles episódios que acaba não dando em nada, e o culpado certamente sairá impune. Infelizmente, pois estamos tratando de um país que irá sediar uma Copa do Mundo em pouco tempo.

Escrito por renanfig.