$O$ Saúde

16 05 2008

Pegando carona no sucesso recente desse novo documentário do Michael Moore, o excelente Sicko, esse post coloca em pauta o problema crônico da administração da saúde pública e privada presente em quase todo o mundo.

O tema merece reflexão pelo óbvio motivo de tratar de um assunto tão delicado em nossas vidas, e por isso eu pego aqui emprestada a pobre tradução de Sicko, “$O$ Saúde”, para intitular a postagem. O filme é uma ácida crítica ao precário sistema de saúde dos EUA, Moore está em plena forma, e, apesar do tradicional sensacionalismo do diretor, o filme aborda com muita competência o tema. O sistema de saúde nos EUA funciona baseado no princípio da livre concorrência, com exceção dos programas Medicare e Medicaid, com os quais o governo americano atende a população mais idosa e alguns marginalizados, a iniciativa privada impera no setor. Não é o novo documentário de Michael Moore que mostra a precariedade desse sistema americano, mais de 50 milhões de pessoas não tem direito a um seguro de saúde, enquanto a maioria dos outros 250 milhões sofre com o péssimo e cruel serviço das seguradoras, portanto esse é um problema já consolidado e muito debatido no país, estando inclusive presente com importância especial na atual corrida presidencial à Casa Branca.

O interessante (e triste) é que os números mostram que a solução está longe de chegar. Os EUA é o país que mais gasta com saúde no mundo! Mesmo com a presença maciça do setor privado na saúde o governo americano surpreendentemente gasta cerca de três vezes mais do que a Inglaterra em despesas per capita no setor (e olha que na Inglaterra qualquer cidadão tem direito ao atendimento gratuito em qualquer clínica no país). Vários fatores contribuem para essa estatística, burocracia excessiva e os nada saudáveis hábitos do americano são alguns deles.

O filme, inclusive, roda algumas cenas em países como Canadá, Inglaterra e Cuba, mostrando as maravilhas do serviço médico socializado e empurrando o sonho social-democrata goela abaixo do telespectador, e é justamente nesse ponto que o filme falha, tropeçando em sua parcialidade. Olhando de perto dá pra perceber que essa maravilha na verdade não é bem assim. Segundo pesquisas, cerca de 75% da população britânica está insatisfeita com seus serviços de saúde, o que motivou Tony Blair a promover recorrentes reformas no setor durante seu mandato, apontando para uma provável privatização gradual dos serviços médicos na terra da Rainha. O sistema britânico gera a tão discutida ineficiência da administração pública, são vários os problemas. Cada vez mais pessoas procuram assistência médica com o subsídio estatal, muitas vezes por motivos banais, pois o sistema proporciona isso. O que o cidadão tem a perder já que quem paga tudo é o Estado? Isso gera longas filas, burocracia e descontentamento para o cidadão britânico. O órgão governamental NHS (National Health Services) conta com um limite de recursos para serem aplicados, assim alguns tratamentos são integralmente pagos pelo Estado enquanto outros só são disponíveis na rede privada, ferindo assim o princípio de equidade do sistema. Outro fato importante é que o paciente fica totalmente alheio ao seu tratamento, quem decide os procedimentos a serem seguidos em grande parte das vezes é o Estado, optando freqüentemente para a alternativa mais barata. Esses e outros motivos provocam dores de cabeça aos governantes no Reino Unido e em vários outros países da União Européia.

Como resolver esse problema então? Bem, idéias e sugestões já existem, mas infelizmente vou ter que cometer a indelicadeza de entrar nesse mérito somente na próxima postagem já que seria um assunto diferente do aqui dissertado.

Escrito por renanfig.

Assista:

Anúncios